Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (30/05/1814 - 01/07/1876)

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (30/05/1814 - 01/07/1876)
Um russo, louco, espontâneo, libertário, internacionalista, revolucionário... um anarquista!

domingo, 30 de dezembro de 2012

História da América: as “altas culturas” pré-colombianas – parte2

As “altas culturas” a os império da região da Zona Andina central pré-colombiana





A Zona Andina Central abrange o Peru, Bolívia, equador, Chile e Argentina. Há três faixas que dividem essa zona:
1- deserto costeiro no litoral do pacífico entre o mar e a Cordilheira dos Andes onde uma corrente de ventos era rica em plâncton e atraia peixes, moluscos e aves marinhas. As carnes dessas aves eram alimento e seus excrementos serviam como adubo. No deserto de junho até novembro o tempo era nublado com nevoeiro, de dezembro até maio era quente e quase não chovia;
2 – as terras altas na região da Cordilheira propriamente dita eram temperadas e frias com vegetação herbácea propícia ao pastoreio de lhamas e o vale coberto de bosque para ocupação humana como Cajamarca, Callejón de Huaylas, huánuco, Mantaro, Cusco e Titicaca;
3 – a região amazônica com vales com bosques e rios largos.
Na região Central Andina a exploração dos recursos ecológicos permitiu a construção de agrupamentos verticais nos Andes. Cada grupo étnico procurava aumentar sua propriedade controlando ao máximo a região construindo colônias residenciais permanentes, não houve um Estado ou colônias multi-étnicas. Esse tipo de residência impediu o desenvolvimento de comércio. A Zona Andina Central era igual a Meso-América em certos elementos como pirâmides escalonadas, aspectos religiosos  culto ao jaguar-pássaro-serpente. Sua originalidade está no complexo agrícola próprio que associou o milho a plantas como a coca, batata e quinoa e domesticou o lhama. O culto aos mortos se reflete nos traços das múmias andinas. Foi desenvolvido em maior quantidade o uso de metais [ouro, prata, cobre e bronze] bem antes de outros lugares. Havia também um sistema de cálculos baseado em cordões chamado de quipus.
A difusão de aldeias e o surgimento dos primeiros templos e centros cerimoniais datam de 2500 e 1800 a.C. Divide-se em duas fases essa história: a fase pré-ceramica (2500-1800 a.C.) onde surgiram as primeiras pirâmides e templos peruanos [vale de Chillón na costa central peruana e em Chuquitanta] logo que a vida se sedentarizou, primeiro que na Meso-América. As culturas eram regionais e as aldeias tinham até 100 pessoas. Já a segunda fase [1800-900 a.C.] veio a difusão do assentamento em aldeias sedentárias nas terras altas dos Andes centrais, com cerâmica, tecelagem com tear. Domesticação do lhama e uso do milho e mandioca e do amendoim. Outros importantes centros foram La Florida [Lima], em Las Haldas na costa central e o Kotosh perto de Huánuca nas terras altas. Havia Estados regionais com várias comunidades aldeãs.
As primeiras culturas inter-regionais surgiram entre 900-200 a.C., com os primeiros elementos artísticos e religiosos e arquitetônicos que se expandiram até a costa norte peruana. O estilo é o Chavin, com o templo de Chavin de Huántar que se caracteriza por uma cerâmica representando um jaguar e vasilhas com gargalos, casas de pedra ou adobe, adornos de conchas e turquesas, enterros com oferendas e ossos pintados de vermelho e com deformações no crânio. O fato de o estilo Chavin estar em muitas regiões se explica pela expansão do culto ao felino, seja por força de armas ou conversão, permitindo assim uma política que poderia ser chamada de “império Chavin”. Mas esse estilo não existiu sozinho.


As primeiras cidades e o progresso dos Estados organizados têm datação de 200 a.C. até 600 d.C. As características desse período são: grande desenvolvimento tecnológico e artístico, surgimento de Estados organizados e agressivos, nascimento urbanístico andino, mas limitado nas terras altas do sul como Tiahuanaco, com praças e edifícios públicos cercados por bairros residenciais, ao todo chegou a ter 100 mil habitantes. E o desenvolvimento tecnológico e econômico mochica está na criação de amplos sistemas de irrigação, um apogeu da tecelagem, do algodão e da lã. A metalurgia era usada na agricultura e nas armas e para adorno. A agricultura, como em outras culturas, reinava sendo completada pela pesca e caça, esta ultima também era um esporte aristocrático. Era uma sociedade populosa e estatal.


(Guerreiros mochicas)


A cerâmica era produzida pelas mulheres e era a melhor do Peru, com uma boa variedade – da utilitária até a funerária, onde representava a vida cotidiana, personagens, guerreiros e divindade, leprosos, bócios, paralisia, tumores e cegueira. Podemos ver com isso o conhecimento da medicina e cirurgia nas imagens das cerâmicas como amputações, trepanação do crânio, mas havia também nas cultura curandeiras, música de trombeta, percussão e flautas.
A estrutura social e política mochica era violenta no aspecto judicial.  Havia castigos severos no sistema judiciário como amputação do nariz, do lábio superior, dos pés; pena de cepo, de morte por lapidação ou exposição do condenado amarrado em poste para as aves de rapina. Os guerreiros eram representados com capacetes, escudo, faca e tacape. A administração era como um Estado, através de estradas e correio público. A arquitetura usava tijolos crus, mas não ouve verdadeira urbanização. Os mochicas eram bons ouvires, usavam turquesas, ametistas, conchas, ouro e prata. A religião conhecia o felino humanizado que aparece voando montado em pássaros, associado a vários animais humanizados ou não, e em luta com outros tipos de animais com conotação demoníaca.
Na costa sul desenvolve-se culturas como as de Nazca e de Paracas-Necrópoles, com figuras ligadas a algum culto astral ou comunicação com deuses celestes. Os cadáveres eram envolvidos em mantos, com os membros flexionados e enterrados com muita cerâmica e outras oferendas. Os tecidos eram de algodão e de lã de lhama. Em Paracas-Necrópoles as tumbas eram verdadeiras casas subterrâneas. Foram achadas centenas de múmias preparadas através da extirpação dos órgãos interno e de ressecamento pela fumaça e envolvidos em cestos depois de envoltas em tecidos.



(Reprodução de cidades em nazca)


(Firugas desenhadas na região de Nazca)


Nos planaltos do sul, em Titicaca, desenvolveu-se uma civilização urbana. Tiahuanaco era um grande centro cerimonial, situado em solo boliviano. A agricultura e o pastoreio eram as bases da economia. Assim como Chavin no passado, Tiahuanaco foi um centro de peregrinação religiosa. Na chamada “Porta do Sol” estava um personagem central humano, tratava-se do deus criador Viracocha. Além das cidades maiores – Tiahuanaco, Púcara, Huari -, havia a menores como Chakipampa, Acuchimay e nwimpukyu. Presume-se a presença de organizações estatais. No vale da costa meridional – Pisco, Ica, Nazca e Acari – surgiram também pequenas cidades, ao norte não há traços de urbanismo, mas muitas guerras que unificaram cada vale e os uniu.
Os primeiros impérios datam de 600-1000 d.C. Houve nesse período conquistas em larga escala com impérios efêmeros que romperam o tradicional isolamento das culturas andinas e permitiu a circulação de bens e idéias na Zona Andina central. O império de Tiahuanaco abrangia do lado Titicaca até o Chile, expandiu seu estilo artístico e militar. Já o império de Huari [600 d.C.-700 d.C.] era um centro urbano do vale do Mantaro, com longa tradição e vínculos culturais com Tiahuanaco. Sua expansão começou entre 600 d.C. e 700 d.C., formando uma liga de cidades. Huari foi a capital de um império que ia do Peru até Cajamarca. As expansões militar e artística difundiram na Zona Andina juntas. Porém houve uma desintegração desse império por causas desconhecidas. Teve a cidade santuário de Pachacamac na costa central do Peru, seu estilo artístico e as técnicas, apesar de não ter progressos eram semelhantes à Tiahuanaco, mas o militarismo e o urbanismo tiveram traços marcantes.


(Reprodução da cidade de Tiahuanaco)

O império inca [1000-1534 d.C.] veio com a destruição do império de Huari que havia levado a descentralização e ao surgimento de Estados independentes. Mas nem por isso o urbanismo deixou de intensificar-se e planificar-se, em especial em chamu e nos incas. Teve aumento da população e extensão de sistema de irrigação. O reino de chimu foi resultado da cultura do vale setentrional de Lambrayeque com elementos mochicas e Huari que dominou a costa setentrional do Peru e parte do Equador com a capital de Chan-Chan, maior centro urbano da Zona Andina Central. A população chegou a 80.000 pessoas, havia guarnições militares. A economia baseava-se no regadio e havia tributo, inspirado nos incas. A sociedade era bem diversificada e hierarquizada. Os Chamus fabricavam cerâmica negra derivada dos mochica e Huari. A metalurgia e o tecido eram avançados e produzidos em série em grande quantidade. A religião se concentrava no culto da lua e das estrelas, incluindo pedras associadas aos antepassados. Havia sacrifícios humanos de crianças e consagração as virgens à Lua. As múmias eram enterradas sentadas em fossas coletivas em oferendas e também apresentavam deformações no crânio. Os reinos e culturas menores eram Cuismancu na costa central com cidades como Cajamarca e Pachacamac. O Estado Chincha no vale da costa sul tinha fortificações, assim como o império Huari e chamu. Os Pukinas eram das terras altas do sul e derivavam de Tiahuanaco e Huari. E iam até a Bolívia e norte do Chile. 
No vale de Cuzco formou-se uma confederação inter-étnica dominada pelo grupo chamado de quíchoa ou inca. A expansão militar unificou a totalidade da Zona Andina Central no imenso tawantinsuyu ou império inca e em seu apogeu se estendeu do Equador ao Chile. Até a chegada dos espanhóis. Sua estrutura econômica era agrária: a terra era preparada com um bastão de semear [taclla] denominado “arado de pé”, depois as mulheres quebravam os torrões com uma enxada [lampa]. Os vales andinos eram estreitos com poucos terrenos planos, isso levou ao cultivo e irrigação por meio de canais bem desenvolvidos. A alimentação eram à base de batata, milho, quinoa e oca. A desidratação da batata congelada e conservada levava ao preparo do chuñu. O lhama tinha diversos usos.
A agricultura e a vida social era baseada na aldeia, habitada por diversas famílias com vínculo de parentesco formando uma comunidade ou ayllu, este era um clã ou linhagem com tendência endogâmica (casavam-se apenas com membros do clã ou linhagem) e um sistema de descendência paralela. A família nuclear era a unidade de consumo e de produção. Cada ayllu tinha um chefe [kuraka] que organizava os trabalhos coletivos e resolvia os conflitos. A terra do ayllu, chamada de marka, era dividida em lotes familiares segundo o tamanho da família. O ciclo da vida agrícola baseava-se na ajuda mútua, chamada de ayni, com uma união de trabalho entre as famílias para semear e colher. Não havia tributos in natura, só prestação de serviço. As divindades de cada ayllu eram os waka. Os chefes dos ayllu concentrava a riqueza através da mita, mas tinha que redistribuir os bens, alimentando os trabalhadores. Havia limites à redistribuição dos bens e assim havia uma diferenciação social entre homens comuns [puriq] e os poderosos ou privilegiados [kapa].
Havia uma pirâmide social de poder entre as ayllus, onde surgiam chefes de confederações tribais e reinos, mas todos estes repetiam as obrigações da prestação e redistribuição bem organizados que existia com os chefes de clã. Nestas condições o comércio não tinha grande desenvolvimento. As mudanças surgiram quando o sistema de política que transferia populações mal submetidas ou mais rebeldes para regiões distantes de sua origem e cortando laços comunitários e reduzindo algumas pessoas a um estado de servidão fora da comunidade [a yana].
Em Cusco, capital conhecida pelo sítio Tambo Colorado, Sacsahuaaman, Machu Pichu, assim como Huari, a administração dos incas se apoiou na difusão do urbanismo com cidades como Tumipampa, Cajamarca, Huánuco, Jauja, foram planejadas. A cerâmica e a metalurgia foram inovadas tecnologicamente, a arte e a religião deixaram de ser regional, mas houve traços ainda regionais. O culto do Sol, deus inca, era obrigatório em todo o Tawantinsuyu. Havia redes de templos e um clero bem hierarquizado: os waka podiam ser rochas, múmias, fontes, cavernas, edifícios, etc., associados aos antepassados. A cultura intelectual era passada oralmente. As tradições mítico-históricas eram função de especialistas hereditários de cada linhagem, os chamados amautas. A língua, a quíchoa ainda hoje existente, foi difundida por toda a Zona Andina Central.

(Cidade inca de Machu-Pichu)



Na organização econômico-social das “altas culturas” pré-colombianas há uma diversidade muito grande. Na costa peruana mostra uma economia costeira associada a agricultura e a exploração do mar com grande desenvolvimento do artesanato especializado, comércio de longa distancia e esboço de uma propriedade privada, igual a meso-América. Sobre a tecnologia podemos ver uma deficiência em relação ao Oriente Próximo – ausência do arado, não uso de veículos de roda e pouco uso do metal como ferramentas -, talvez pelo fato de não ter ligação mais estreita com a pecuária. Mas se identificou um grande progresso considerável ao aspecto humano: esforço das civilizações pré-colombianas em aperfeiçoar a divisão social e técnica de trabalho, formas de controle e cooperação da mão-de-obra, diferente do Oriente Próximo e da África antes da colonização. Isso se explicaria pela possibilidade de tecnologia pouco avançada e por haver sociedades estratificadas e diversificadas com um bom desenvolvimento cultural.
  Essa organização construída pelas “altas culturas” - o sistema de “reciprocidade” e de “distribuição” – também se diferenciam do modo de produção asiático, que tem como característica o controle da irrigação pelo Estado despótico, fraco desenvolvimento da propriedade privada, existência de estruturas rurais comunitárias com uma classe dominante encarnada na estrutura estatal que submete a comunidade aldeã e explora com tributos. Na América pré-colombiana há um maior caráter igualitário e clânico nas comunidades pré-colombianas como o ayllu e calpulli.




Fonte: CARDOSO, Ciro Flamarion. América pré-colombiana. São Paulo: Brasiliense, 2004.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

HIstória da América: as "altas culturas" pré-colombianas - parte 1

O urbanismo e as "altas culturas" do continente americano antes de Colombo.

 Esse texto se divide em dois, um para as "altas culturas" da região da Meso-América e o outro para as "altas culturas" da região da Zona Andina Central. Nesse texto descreveremos apenas da região da Meso-América.
O surgimento das cidades construídas por grupos pré-colombianos no Continente Americano está ligada a concentração populacional e a agricultura eficiente que permitiu divisão do trabalho.. A diferença da cidade em relação à aldeia está tamanho populacional, especialização dos artesãos e administradores, impostos, obras publicas e uma classe dominante. Para os sociólogos a diferença está na diversidade social, ao mercado e a relação impessoal (contato freqüente com outras tribos alojadas numa mesma cidade). As estruturas eram as ruas, com lugar para trabalhar e para morar, centros militares, centros econômicos e capacidade de irrigação desenvolvida.
 
O urbanismo na América pré-colombiana é do século II a.C. O motivo desse urbanismo não está ligado à irrigação controlada pelo Estado (como foi o caso dos grupos humanos do Oriente Fértil), pois esta irrigação era controlada por uma organização local. Os maias não chegaram construir cidades, apenas aglomerações com extensos subúrbios, edifícios religiosos e públicos com praças e pátios, para o historiador inglês E. Thompson seriam somente centros cerimoniais com várias aldeias dispersas. A falta de cidades está ligada as secas longas e agricultura primitiva. Vamos ver longo abaixo as sociedades consideradas como as “altas culturas” da América pré-colombiana (entre o milênio II a.C até a chegada dos europeus no século XV e XVI), seria o ponto máximo dessas sociedades antes da invasão européia, em primeiro momento vamos descrever as sociedades localizadas na Meso-América e em outro texto descreveremos as “altas culturas” da região da Zona Andina central (que compreende parte do Peru, Bolívia, Colômbia, Chile e Equador), localizada na América do Sul.

(As principais cidades e aglomerações urbanas na meso-América)


As "altas culturas" pré-colombianas: a Meso-América do milênio II a.C.




                                                  Mapa das culturas meso-americanas.
 

As “altas culturas” pré-colombianas localizadas na Meso-América datam do milênio II a.C., nessa região nesse período é que formou-se a cultura meso-americana compreendendo partes do México, Guatemala e Belize e parte de Honduras, El Salvador, sudoeste da Nicarágua, Costa Rica. Essas culturas seriam a Jalisco e nayarit (estilo artístico da região das terras altas centrais centro era Tlatilco), nas terras altas central do México cultura de Teotihuacán, tolteca e asteca; no golfo mexicano as culturas olmeca, totonaca e huasteca; na zona maia a Iucatã, Campeche, Tabasco; México meridional a civilização zapoteca e misteca (região de Oaxaca). Suas características culturais seriam agricultura com bastão de semear o milho, o cacau e plantas específicas, pirâmides escalonadas em degraus, jogos rituais com bolas de borracha, sistema numérico vigesimal, escrita hieglíficas, pictográfica e ideográfica e zarabatanas com projéteis de argila.


(Um palco para a prática do tlachtli (jogo ritual com bola de borracha) que podeia até matar caso a bola maciça de borracha acertasse na cabeça. usava-se a lombar, os cotovêlos e os joelhos, que também levava a fraturas).


  
A economia se baseava no sistema agrícola e os povoamentos classificados como coivara (bastão de semear em clareira nas arvores queimando a vegetação menor e abandonando o solo depois). O sistema de pousio curto era semelhante ao medieval, paralelo as clareira plantava-se hortas adubadas com folhas e excremento e detritos domésticos. O sistema de regadio permitia culturas permanentes levando a um aumento populacional. No México central esses sistemas aumentou até 500% a produção.
 
A cultura olmeca e as culturas contenporaneas (1200 a.C.) já tem uma hierarquia social, na arte pode-se ver enterros luxuosos na Guatemala [kaminaljuyu] e no vale do México [Tlatilco] (nas terras altas centrais perto de Teotihuacan). A agricultura era produzida para não ter que trabalhar na terra todo o ano. O culto do jaguar associdado ao deus da chuva e da Terra, são traços de uma cultura meso-americana. A dieta baseava-se no milho, feijão e abóbora as margens dos rios, além da caça e da pesca. A hierarquia social ia desde chefias e confederações tribais passando pelos centros cerimoniais formando um grupo dominante. A cultura olmeca se difundiu graças aos mercadores indo até a Costa Rica.

 (Cerâmica olmeca)
 
Os centros mais importantes olmeca eram San Lorenzo (12oo a.C.), Venta [1000-600 a.C.] e Três Zapotes, indo até a época de Cristo. Conheciam o metal e o jade, desenvolveram a escrita e o calendário, a cerâmica era de má qualidade, mas as esculturas de pedra eram boas. As proliferações de culturas autônomas diminuiu a influencia dos olmecas. A cultura olmeca foi a primeira grande cultura que associou os recursos e as tradições a costa na Meso-américa, suas rotas comerciais iam de Chiapas, sul da Guatemala até a Costa Rica. Influenciaram a arte de Teotihuacán, com o estilo chamado totonaca e com as mais antigas dos maias e os objetos zapotecas, daí ser chamados de “cultura mãe” da Meso-America.
  
As culturas contemporâneas dos olmecas (que saem da região dos olmecas indo mais para as terras altas centrais) foram os Jaliscos e os Nayarit, nos arredores da cidade do México, desde 1000 a.C. desenvolveu um estilo chamado de Tlatilco, com cerâmicas com figuras de mulheres [culto a fertilidade], com influencia asiática. No vale do México (mesmo lugar de Tlatilco) teve a cultura Tlapacoyca e a Cuicuilco.

  
O milênio I d.C desenvolveu-se sociedades mais complexas com hierarquias, comercio de longa distancia e urbanização. A primeira grande cidade meso-americana foi Teotihuacán [de 100 d.C. até 750 d.C.] no planalto mexicano, por volta de 100 d.C.- apogeu em 450 d.C. - chegando a ter 85.000 habitantes, mas não era fortificada e nem tinha caráter sacerdotal. No centro havia pirâmides, edifícios públicos, palácios, zonas artesanais, ruas para atividades especializadas, quarteirões com avenidas, ruas e praças e um labirinto de subúrbios não planejado.



(Uma pirâmide escalonada da cidade de Teotihuacan)

 
A estratificação social era avançada na cidade: grupos especializados, castas de guerreiros, aristocracia hereditária, sacerdotes, mercadores e uma burocracia estatal. Havia tbm atividade de importação [algodão, cacau, plumas] e exportação [cerâmica] com outras regiões. A região criou o panteão mexicano. A destruição da cidade ocorreu em 750 d.C. com revoltas camponesas e ataque externo. No México meridional em Oaxaca desenvolveu a civilização zapoteca, influenciada por Teotihuacán, mas depois de 550 d.C., essa influencia deixou de existir, houve um influxo da cultura maia, em 950 d.C. A região foi abandonada depois da invasão misteca.) (na região costeira de Veracruz encontrava-se os centros de El Tajin e Tajin Chico, pertencentes a cultura totonaca [600 a.C.-800 d.C.] com apogeu em 600 a.C. até 1200 d.C., seus estilos influenciaram regiões como Chiapas até Honduras. Tinham tbm influencia de Teotihuacán. Os maias foram a mais famosa civilização meso-americana com centros importantes como Tikal, Copan, Quirigá, Piedras Negras, Uaxactun, Palenque, yaxchilan, todos situados no México e na Guatemala e oeste de Honduras. A base econômica era a agricultura do milho com sistema de coivara que não permite muita agloemração, nos centros viviam os dirigentes, artesãos especializados e em sua volta as aldeias não-permanentes.


(Palenque, região maia)

 
Nos centros religiosos como Tikal e Copan haviam pirâmides, pátios, calçadas, jogos rituais de bola de borracha, mas com caráter descentralizado. A cerâmica era variada, estatuetas de barro modeladas à mão – igual as outras culturas -, a religião tem origem na natureza e no deus da fertilização e da chuva – Chac-, do vento e do milho. As divindades eram ligadas aos pontos cardeais e ao calendário. A partir de 800 d.C. os centros cerimoniais foram abandonados, havendo traços de violência, hipóteses indicam esgotamento do solo por causa da pressão demográfica e tributária e da agricultura de coivara levando a imigrações e revoltas camponesas. A queda do principal centro e os regionais levaram ao florecimento de centros regionais como El Tajin [Veracruz], Xochicalco [Morelos] e Cholula [Puebla]. Mas o vazio de poder levou a migrações para o sul da Meso-América de nômades chamados de chichimecas.


(Escultura do deus Chac)
 
No ultimo período da história pré-colombiana na Meso-América [+- 900- d.C.] tem como característica dois processos sócio-culturais. O primeiro se divide no modo de vida dos agricultores sedentários e o modo de vida dos guerreiros nômades, caçadores-coletores; levando a um conflito e mesclando-se também. O militarismo e o prestígio guerreiro são acentuados e penetram na religião. O segundo processo se dá pela difusão da herança de Teotihuacán, mas com novas concepções urbanísticas, arquitetônicas e artísticas, além da metalurgia.
 
O inicio da civilização toltecas [sec.X a.D.-1168 d.C.] se vincula a migração dos chichimecas vindos do norte no século X d.C., se sedentarizando e assimilando a herança Teotihuacana através dos contatos com povos locais. O império tolteca tinha como capital Tula ao norte do México, antes eram nômades e agora vigiam suas fronteiras para evitar invasões, comercializavam com o sul e o norte [importando cacau, jade, plumas e algodão e exportando artigos]. Sua cerâmica, alaranjada, era de estilo Mazapan. Sua destruição se liga as novas ondas de migrações vindas do norte, a capital foi destruída em 1168 d.C. criando outro vazio de poder no centro mexicano. Hipóteses ligam isso a um ressecamento climático tbm.


(Estátuas da cidade de Tula)

  
Os mistecas (950 d.C.-) sucederam os zapotecas em Oaxaca, são os pais do urbanismo meso-americano em sua ultima fase. Desenvolveram o trabalho com metal, além do ouro, e cerâmica policroma, mosaico de turquesa. A arquitetura inspirava-se na zapeteca e utilizavam as tumbas destes. A unidade básica era a de Cidade-Estado, com rei, conselho de nobres, sacerdote e chefe militar, rede de funcionários, polícia e chefes de aldeias. A estrutura social era de regimes de clãs ou linhagem tribal, havia o povo e os “escravos” (criminosos, prisioneiros de guerra). A economia tinha nível baixo com instrumentos de pedra e madeira. A agricultura erma complementar com pesca, coleta e caça. As Cidades-Estado eram independentes e rivais, característica do México central depois dos toltecas. A hegemônica era Teotihuacán – dos mexicas (daí o nome México) ou astecas – fundada no lago de Texcoco, vale do México em 1325 d.C., e aliou-se com os tepaneca e depois as cidades de Texcoco e Tlacopan [tríplice aliança em 1440 d.C.] que permitiu estender os domínios asteca até Montezuma II quando chegaram os espanhóis em 1516. Nessa época o império asteca [1325 d.C.-1516 d.C.] era um mosaico de alianças, confederações, relações tributárias, implicando povos numerosos e heterogêneos sendo submetidos e expedições punitivas para manter o domínio e as rotas comerciais.



(Cidade do império asteca ou mexica)

 
A unidade social mexica era o calpulli, comunidade residencial com direitos comuns sobre a terra e uma organização interna administrativa e judiciária, militar e fiscal, mas não eram divididos em clãs e sim tribal e depois da conquista a hierarquia e a desigualdade social estabeleceu dentro de cada calpulli. O rei [Huey Tlatoani] tinha função de chefe tribal e de Estado. No apogeu do império asteca havia uma estratificação social: a nobreza hereditária [tlatoque], nobreza militar [tecuhtli], comerciantes residentes em Tlatetolco [pochtecas ou oztomeca], artesãos diversos e escravos. as plantas cultivadas eram o milho, feijão e pimenta; animais eram o peru e um tipo de cão para alimento. A agricultura era primitiva assim como os maias, a metalurgia era pouca. A estrutura agrária era dividida em: propriedade comunal [terras do bairro ou calpulli], subdividida em linhagens; propriedade dos nobres, hereditária; e, propriedade pública.
 
O trabalho rural se dividia em quatro tipos de trabalhadores:
 
  • Os calpuleque ou membros do calpulli, igual aos servos medievais; 
  • Os teccaleque, membros do calpulli que serviam a corte; 
  • Os arrendatários;
  • Os mayeque, camada inferior da população rural, dependentes que trabalhavam nas terras do rei e nobres;
  • Os “escravos”.
 
 
 
Tenochtitlan recebeu muitos artesãos de diferentes povos, chegou a ter 300 mil habitantes e seu comercio abrigava até 60 mil vendedores. O comércio de longa distancia era controlado pela casa real. Exportavam escravos, roupagens, objetos de luxo, obsidiana, ocre, pele de coelho, e importavam turquesas, jade, pele de jaguar, mantos de plumas, cacau e escravos. na religião, arte e outras manifestações os astecas eram a síntese de tradições meso-americana, com incorporações notáveis como cerâmica negra e alaranjada ou vermelha, mosaico de pedra ou concha. O sacrifício humano também existia. Havia uma educação de elite.
 
Na parte 4 descreveremos as “altas culturas” da Zona Andina Central.





Fonte: CARDOSO, Ciro Flamarion. América pré-Colombiana.São Paulo; Brasiliense, 2004.

história da América: os primeiros habitantes da América pré colombiana - parte 2

A"revolução neolítica" na América (7.000 a.C. até 1.200 a.C.).

Esse texto é continuação do texto "Os primeiros habitantes do Continente Americano", já postado. Aqui o período se refere a data a partir de 7.000 a.C. até o surgimento das primeiras cidades, por volta de 1.000 a.C.


Estátua de um cacique da tribo Chibcha, grupo da Colômbia, da confederação muísca.



As transformações que levaram a domesticação de plantas e animais, surgimento de cerâmica e polimento de pedra, sedentarismo e organização tribal são vistos como uma ‘revolução neolítica’ aqui na América significando a transição de grupos humanos de predadores para produtores, mas foi uma revolução plural, ocorrendo com diferenças consideráveis, sem uma ordem de acontecimento. Não necessariamente o uso do metal viria depois da agricultura como foi o caso da região de Grandes Lagos no norte da América em 2.000 a.C.

Muitos alimentos tiveram uma mutação na América, como é o caso do algodão. A domesticação de plantas foi mais difundida que de animais [na Meso-América foi a partir de 7.000 a.C. e na Zona Andina Central a partir de 5.000 a.C.] houve duas tradições agrícolas: a semeadura e colheita de grãos e leguminosa (milho, feijão, amaranto e quinoa) e a plantação de mudas produzindo raízes e tubérculos (mandioca e batata, aipim, batata-doce). Fato é que a agricultura se difundiu por toda a América.

A mais antiga planta americana é a cabaça cultivada na Meso-América desde 7.000 a.C. A domesticação de plantas e animais teve como motivos – de acordo com várias hipóteses – o conhecimento profundo das plantas e da região pelos grupos de humanos, crescimento do numero populacional devido a imigração, além da passagem da vida nômade para a sedentária. A origem da cerâmica aqui na América também é bem debatida. A mais antiga encontrada é a de Valdívia na costa do Equador datada de 3.200 a.C. A difusão da cerâmica teve um processo longo e variando de lugar para lugar.

Para o estudo da diversidade cultural temos três áreas:

As áreas do Haiti e da República Dominicana e os planaltos centrais do México temos uma média de 40 habitantes por km² devido ao intenso cultivo de tubérculos e as técnicas de irrigação e o terreno;

As planícies e planaltos maias com 5 habitantes por km²;

E no restante do continente com 99% do continente estabeleceu mais a caça, a coleta, a pesca e a agricultura primitiva.



Essas mudanças, ocorridas entre 2000 a.C. e 1.500 a.C. levaram a formação de aldeias sedentárias e agriculturas altamente produtivas desenvolvendo duas áreas básicas: a “área nuclear” e as “culturas marginais”. Formaram sociedades complexas apesar de não haver cidades, com hierarquia social, e artesanato especializado. Como é o caso de Tlatilco no México central (1.000 a.C.), percebe-se a diferenciação social manifestada nos enterros e centros cerimoniais, havia edifícios para o comércio, para a religião e para reuniões. As aldeias eram ligadas por confederação ou chefia. Teve as culturas pueblo do sudoeste dos Estados Unidos (por volta de 1.100 d.C.), nordeste argentino (Zona Andina Meridional – por volta de 800 d.C.), América Central (Guayabo de Turrialba – na Costa Rica por volta de 1.300 d.C.), as culturas Chibcha e San Agustín na Colômbia (no rio Bogotá e Chicamocho) por volta de 1.200 d.C. Estes dois últimos eram politicamente confederações tribais com dois chefes supremos com caráter político e sacerdotal e os chefes menores brigavam constantemente entre si. A agricultura e o artesanato desenvolveram bem. Havia um culto ao herói civilizador – Bochica; cultos tribais de fecundidade, do deus criador chiminigágua, incluía nos cultos sacrifícios de adolescentes estrangeiros com facas de bambu em lugares altos para o deus Sol. Muitas culturas seguiram a linha dos Chibcha.

Haviam dois tipos de organização social: a tribo e a chefia. Nas tribos havia uma subdivisão em grupos multifamiliares por linhagem e aldeia, com áreas de recursos comuns e formação residencial com família nuclear – fundamentais para a estrutura social. A propriedade era coletiva na produção, o poder era ligado e amparado no culto dos antepassados. Os mais velhos eram os chefes de linhagem e monopolizavam o saber necessário para a permanência do grupo e certos bens como escravos, esposas e artigos. No entanto, não havia uma exploração dos mais jovens, pois estes depois recebiam a ‘liberdade’ para criar sua rede de dependentes, mas as mulheres sim, ao que tudo indica, estavam sob uma exploração permanente.

Já as chefias, eram o resultado da hierarquia de prestígios entre as linhagens – até hereditário – porém não há estratificação em classes sociais e se baseavam no parentesco. O chefe podia ter uma corte e artesãos especializados para estes. Muitos marxistas vêem o surgimento da diferenciação entre mulher e homem nessas sociedades ao aparecimento da agricultura e a criação de gado e o pastoreio que teriam dado um privilégio ao homem que antes não tinha tais privilégios no ponto de vista social e na produção econômica [homem e mulher eram iguais na tribo ou clã, todas as mulheres eram esposas de todos os homens, era um casamento endogâmico, mas coletivo], depois do privilégio o casamento teve uma mudança para a patrilinearlidade [a linhagem do homem era mais importante que a da mulher]. De qualquer forma, não houve um modo de vida e sim vários, levando a criação de conceitos como “modo de produção doméstico” ou “modo de produção de linhagens” para caracterizar os grupos humanos do Continente Americano nesse período.

 
Fonte: CARDOSO, Ciro Flamarion. América pré-colombiana. São Paulo: Brasiliense, 2004.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

História da América: os habitantes da América pré-colombiana - parte 1


Os primeiros habitantes do Continente  Americano: a vida na América antes do sedentarismo e das cidades (11.000 a.C. até 7.000 a.C.).



Esse texto tem como base o livro do historiador brasileiro Ciro Flamarion Cardoso, América pré-colombiana, aqui trataraemos somente dos primeiros habitantes do continente Americano.
O povoamento da América se deu por descendentes dos homo sapiens sapiens do velho mundo, a rota mais antiga para a América foi a do estreito de Bering, houve um período Paleolítico na América e o povoamento se deu em diversas regiões e em diversos períodos, de formas diversas.

Tal povoamento iniciou com os proto-mongolóides (antecedentes dos mongolóides) que sofreram mutações e variações genéticas aqui no continente Americano, depois vieram os povos da Ásia, Austrália, Polinésia e Melanésia, por isso as mais de 2 mil línguas desenvolvidas aqui no continente.

Acredita-se em imigrações pelo mar e de negróides, mas as argumentações são frágeis, segundo o historiador Ciro Flamarion Cardoso.

Os humanos da Ásia meridional ao atravessarem o estreito de Bering trouxeram técnicas paleolíticas conservadoras em relação as técnicas de outros paleolíticos, por isso muitos pesquisadores acreditavam que houvesse grupos humanos aqui na América antes de 11.000 a.C. De qualquer modo as discussões estão aceitando mais tais hipóteses.

No período Paleolítico Superior [para o restante do mundo data de 40.000 a.C. e para a América data a partir de 11.000 a.C. e vai até 6.000 a.C.], houve grupos humanos com tecnologia de produção de projéteis de pedras e caçadores de animais grandes, depois houve uma regionalização tecnológica (adaptação com a região), os modelos desses projéteis mais generais e mais antigos eram de influência asiática, mas os modelos adaptados foram inventados na América como, por exemplo, o projétil ponta Plano da América do Sul e a ponta Llano da América do Norte. Mas nem todos os humanos eram caçadores de animais grandes (pouca técnica de caça), uns eram herbívoros, como no vale mexicano de Tehuacan onde viviam da coleta de plantas e de animais, mas sem uma caça especializada. Houve dois tipos básicos de vida: o da caça generalizada e o da caça especializada.

Por volta de 6.000 a.C. houve mudanças no clima, mais quente que levou o mar a subir e alagar lugares mais rasos surgindo crustáceos, peixes e moluscos nas regiões mais rasas, isso levou uma diversidade maior e regionalização do modo de vida. Somam as caças os recursos marinhos. As migrações misturam os modos de vida em diversos lugares: nos bosques a caça e a coleta; no Canadá, EUA e México a caça especializada; Peru e Chile os recursos marinhos e no México a coleta de vegetal.

Os grupos humanos de caçadores e coletores no período pré-agrícola são classificados como bandos e agrupavam-se até 25 pessoas com uma divisão social através do sexo e da idade: os homens caçavam e as mulheres coletavam. A base social era a do parentesco simples, sem genealogias longas ou culto aos antepassados. Os bandos chegavam a 500 pessoas em épocas boas e diminuindo em épocas difíceis.
Teremos outros textos dando sequência a esse.


Fonte: CARDOSO, Ciro Flamarion. América pré-colombiana. São Paulo: Brasiliense, 2004.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

HIstoriografia: A História da História em fins do século XIX




O texto abaixo é uma resenha do livro A História Pensada: teoria e método na historiografia européia do século XIX, de Estevão de Rezende Martins, de 2010. Procurei ressaltar o historiador que ao meu ver mais colaborou para uma metodologia que permitiu a prática de uma História que no início do século XX Marc Bloch fizesse alusão. O livro tem o objetivo de quebrar a idéia de que a historiografia do século XIX se limitou ao político e ao econômico, concentrando seus estudos nas formações dos Estados Nacionais. A historiografia foi mais do que simplesmente os métodos de Ranke, foi mais plural.
Quase todos os historiadores do século XIX tratados por Estevão de Rezende Martins têm sua influencia, por já levantarem assuntos pertinentes, ao tipo de abordagem da futura História Cultural, com rara exceção de Ranke que acabou por ser o mais criticado pelos historiadores da 3ª e 4ª geração dos Annales. Optei por Jacob Burckhardt, pois foi o que mais expressou uma mudança em busca de um amplo campo temático e como resultado desse campo, parece dar espaço para a construção do método analítico no percurso da pesquisa, coisa que os historiadores da história cultural parecem enfrentar a ausência de uma metodologia mais abrangente. Mas vamos conhecer primeiro o historiador italiano.

Os campos delimitados, ou acrescentados na pesquisa da História têm de início Jacob Burckhardt (1818-1897), italiano que introduziu a produção histórico-artística. Em 1869 traçou as perspectivas e os limites da História da Arte e elaborou uma relação entre o fenômeno artístico e o amplo universo histórico-cultural interpretando o objeto artístico como fenômeno integrado ao ambiente cultural que o produziu. Essa abordagem da arte mais próxima do social como resultado dialético do contexto em que foi criada. Seu método exige do historiador orientar o percurso em meio à profusão de obras e artistas, desenvolver e refinar o conhecimento visual das obras de arte (2010, p. 164). O método de Burckhardt transfere para o total ou para o coletivo, em oposição a biografia, o motor para a produção das atividades humanas que, nesse caso se especializou nas produções artísticas renascentistas.

Discorre o historiador Jacob Burckhatdt sobre a tarefa do historiador no curso de História da Cultura Grega, de 1872. Deve o historiador indagar as forças vitais, essências que distinguem determinada sociedade. O elemento superior do fato é o constante que estaria nos fatos gerais e não as biografias.

As vantagens da História da Cultura são: a possibilidade de proceder por agrupamentos, dar relevo aos fatos segundo a sua importância proporcional, diferente da historia-crítica. Por outro lado, há dificuldades, como as ilusões que ameaçam o estudioso. O que foi constante e característico? Somente com uma leitura multiforme se revela. Além disso, há a dificuldade da linguagem que deve ser sucessiva, gradual por isso é inevitável a repetição por causa dos fatos ter contatos recíprocos, isso é considerável porque Burckhardt dá ênfase na idéia de que todos as atividades humanas acabam por ser interessante e importante para a produção de sua época. Sua posição sobre o além-econômico vem ao defender uma cientificidade da história como cátedra acadêmica por julgar ser necessário justamente por, acreditar Burckhardt, ser a arte um condicionamento e envolve na sociedade (2010, p. 183).

Antes de Jacob Burckhardt, há Carlyle (1795-1881) que insiste na linguagem poética e se volta contra o método cientifico, Dorysen (1808-1884) colabora no procedimento metodológico, porém aceita uma manipulação da escrita de forma propagandística; Bernhein (1850-1942) prefere regras específicas por temas, falha ao crer na reconstrução com perfeição do sentimento do passado; Lamprecht (1856-1915) dá um crédito à história cultural, mas desponta os aspectos políticos e das idéias e define que a História Cultural pode ser vista como História Universal pelo cerco que abrange. Depois de Burckhardt temos Ranke (1795-1886) que acredita na história como arte, seu triunfo são a rigorosidade exigida para a pesquisa; por fim Buckle (1822-1862) que quer prender a História as ciências naturais, dogmatiza o conceito de ciência às bases das ciências naturais, isso impede a construção de uma ciência própria da História, coisa que ele acredita ser possível com os métodos da ciência da Natureza.

Jacob Buckhardt (1818-1897) é o maior colaborador, claro que reivindicou as idéias levantadas antes dele, mas foi o que estabeleceu de fato uma prática metódica da História Cultural, menos pelo tema abordado na pesquisa que pela elaboração teórica construída acerca desse tema. Burkhardt acredita que Lamprechdt e Droysen já assinalavam que é uma história total ou uma analise envolvendo de forma recíproca os objetos, uma história Universal, sem especificação de temas isolados. Apesar de abordar uma história artística, ele inclui essa arte no contexto histórico e aceita, apesar de não estar explicito no texto de Martins, por exemplo, o ‘fermento’ que Lamprecht menciona como molde cultural de uma época, por isso vai trabalhar a arte em seu contexto e interagindo com este, sendo agente e receptor do momento vivido.

Burckhardt elabora métodos específicos para esta produção, é o que todos os historiadores apresentados por Martins deixam claro, a bagagem de conhecimento, Burckhardt vai além, com um método específico do tema, um preparo metodológico para lidar com o objeto, o resultado é a necessidade de uma leitura multiforme como método orientador neste caso, segue decorrendo a tarefa do historiador de criar indagações específicas para o tema. Nesse aspecto vem uma de suas maiores importâncias, ele se depara com as dificuldades que voltarão lá na década de 1980 (mais de cem anos depois) com a história cultural, que Chartier apenas criará um esboço metodológico, ou apenas um ‘termo’ como acrescenta Peter Burke em sue livro A Escrita da História, se mostrando ser o caminho dessa ‘nova’ abordagem algo sobre tropeços tanto por parte de sua infância metodológica, como por parte da resistência de muitos historiadores. E apesar de pesquisar sobre a arte em momento algum liga a produção da história com uma ação artística.

O problema dessas novas abordagens de fins do século XIX não ter sido a locomotiva da historiografia do fim desse século são os fatores contextuais vividos pela sociedade de então que proporcionaram um maior olhar ao econômico e especialmente ao político, justificando os Estados Nacionais, vamos lembrar que nascia a Itália, a Alemanha entre outros Estados.

                REFERÊNCIA:     MARTINS, Estevão de Rezende. A História Pensada: teoria e método na historiográfica européia do século XIX. São Paulo: Contexto, 2010.