Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (30/05/1814 - 01/07/1876)

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Um russo, louco, espontâneo, libertário, internacionalista, revolucionário... um anarquista!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

HISTORIOGRAFIA: RESENHA DE "FONTES AUDIOVISUAIS - A HISTÓRIA DEPOIS DO PAPEL", DE MARCOS NAPOLITANO.



O vídeo tem várias partes e foi filmado no programa CAFÉ JAMAC,


Abaixo está a resenha de um capítulo do livro Fontes Históricas, organizado pela historiadora Carla B. Pinsky. O capítulo, Fontes audiovisuais: a história depois do papel, é de autoria de Marcos Napolitano.

Marcos Napolitano, doutor em história social pela USP no qual trabalhou os festivais da canção dos anos 60, especialista em musica popular brasileira e história, além audiovisuais em geral. Em seus livros, incluindo Como usar a televisão em sala de aula, História e cinema, História e música, além de vários artigos e colaborações em livros sobre o assunto como é o caso dessa resenha do capítulo Fontes visuais: a história depois do papel, que está no livro Fontes Históricas publicado pela editora contexto em 2005 e reedição em 2012. Marcos Napolitanos constrói a idéia de “ler” esses meios de comunicação de forma metódica e sistêmica para extrair informações de cunho social, cultural, ideológica e tensões históricas envolvidas, para isso faz ‘leituras’ técnicas, sociológicas e histórias dessas fontes. Napolitano diz da necessidade de um preparo técnico específico do historiador lidar com tais fontes que recentemente estão sendo incluída no rol de documentação da pesquisa em história, por isso a falta ou não criticidade de muitos pesquisados ao trabalhar com essas fontes.

Napolitano alerta para não se cair na dicotomia de acreditar que essas fontes ou são objetivas e diretas ou simplesmente subjetivas, sugerindo uma ‘ilusão subjetiva’ da realidade. Ao contrário, Marcos napolitano diz que devemos perceber as fontes audiovisuais e a música em suas estruturas interna de linguagem e seus dispositivos de representação da realidade, a partir de seus códigos internos para sua relação com o contexto sociocultural em que foram produzidas e que circulam (p. 236). Essa relação intermediária entre objetividade e subjetividade pode sim ser reproduzida pelo historiador, desde que esse use de critérios metodológicos específicos para a análise articulando as técnicas da linguagem técnico-estética das fontes audiovisuais e musicais e as representações da realidade histórica ou social nela contidas (p. 237), depois das indicações de Napolitano o leitor não verá com os mesmos olhos o mundo audiovisual e passará a ‘ler’ a televisão e a música com uma criticidade maior ao ponto de construir estruturas legíveis das ideologias, tensões sociais e econômicas envolventes na produção e circulação desse produto muito consumido na sociedade contemporânea.

Afirma existir duas decodificações na analise de imediato, a de natureza técnico-estética e de natureza representacional. As fontes não-verbais não diferenciam em nada das exigências de outras fontes documentais verbais utilizadas pelos historiadores indo além da mera ilustração.

Sobre os problemas técnicos dessas fontes Napolitanos esmiúça as abordagens específicas do cinema, da Televisão e da música. Do cinema diz haver três abordagens, utilização como fonte primária, produção de discursos históricos e avanços técnicos da área; se dividindo em duas vertentes: o filme-documento que utiliza de registros primários do passado e os filmes encenados que é a afirmação do ponto de vista do diretor. Deve-se crer que essas produções intervêm na sociedade pelas manipulações dos realizadores. Usa de Morettin para afirmar que as tensões internas, ou seja, atividades da produção técnica, vão além da mera manipulação do resultado desejado, as ambigüidades das imagens podem mostrar informações além as explicitas e manipuladas no produto (p. 243).

Usando de Morettin, Napolitano afirma que a metodologia clássica vem insistindo no problema que distorce a analise do documento fílmico e propõe que o exame das produções deva emergir de sua própria análise, averiguando se as intenções e ideologias da produção estão desenvolvidas corretamente, se tem deficiências na produção e no passar o discurso. O historiador deve partir do próprio filme, através de análise interna e depois seguir para análises externa.

No caso da Televisão, Napolitano diz tem um problema específico, não haver uma preocupação de órgãos publico em guardar a memória, ficando para particulares que dificultam o acesso as fontes primárias, daí as bases desse tipo de pesquisa se basear muito em fontes escritas como depoimentos e periódicos. Mesmo assim, pode-se construir suas representações, com cita os historiadores Armand e Michelle Mattelard que construíram um imaginário sul-americanos através da Televisão, afirmam ter construído e mantido um sentimento do melodrama através do tipo de telenovelas, fotonovelas, folhetins e canções produzidas na América latina, isso explica o excesso de sentimentalismo usado nessas produções.

O telejornal é outro campo pra estudos, servindo de produção de uma memória social sempre vinculada á lógica do espetáculo que sempre rege a linguagem da TV. Aqui se envolvem três operações na produção do telejornal: registro de dados, a caracterização dos fatos inseridos numa rede da causalidade e efeitos imediatos, narrativa dos eventos, em especial os de grande impacto. Olhe nossos telejornais diários e tente ‘lê-los’ nessa ótica. Há nesse ponto um desafio para o historiador, o acesso aos materiais que estão guardados pelas emissoras que os produzem, mas caso o acesso é permitido deve-se trabalhar com método serial e quantitativo na análise.

A música se divide em três áreas, sendo a musicologia histórica, etnomusicologia e “Estudos para músicas populares”, que é a área de investigação de Marcos Napolitano. Esta há um problema que sempre se analisa as fontes escritas, as letras e se esquece da parte musical que envolve significados técnicos, estético-ideológicos (sempre se ater com o espaço da gravação original, mas as releituras também são importantes), assim podendo envolver sua circulação e apreciação por determinados grupos. Uma Éguinha Pocotó, ou mesmo Noel Rosa podem ser úteis para análise de certo contexto sociocultural. Não é incrível?!

Qual seria a peculiaridade da musica popular usada como fonte histórica? Que linguagem estética? Quais códigos estariam intrínsecos? São perguntas para todas as áreas das ciências humanas responderem. A música não exprime conteúdo diretamente [...] mesmo quando acompanhada de letra, no caso da canção, o seu sentido está cifrado em modos muitos sutis e quase sempre inconscientes de apropriações dos ritmos, timbres das intensidades, das tramas melódicas dos sons” (p. 258), diz Napolitano.

O ‘sentido cifrado’ da canção, ultima fase da crítica interna na análise desvela-se na análise do contexto histórico no qual o compositor se insere como agente social e personagem histórico. O historiador deve se ancorar no mapeamento das ‘escutas’ históricas (ouvintes e artistas envolvidos, o tempo/espaço de nascimento e circulação da canção) que dão sentido histórico as canções, seus sentidos sociais, técnicos, políticos e transmissão do patrimônio cultural de uma sociedade.

A utilização das fontes audiovisuais na pesquisa histórica é bem variada de acordo com a fonte desejada. O cinema tem bem mais arquivos como a Cinemateca Brasileira, Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Museu Lasar Segall em São Paulo. A música já não é assim, não há uma política de preservação do material fonográfico, porém, as gravadoras estão relançando muitos materiais, há também a internet que facilita e muito tais acessos. No caso do historiador que deve sempre ter acesso ao original é mais complicado. As fontes audiovisuais são os maiores desafios par a pesquisa histórica porque os arquivos são das próprias emissoras tornando o acesso mais restrito. Na internet temos vários sites que possibilitam tais acesso musicais e informações ligadas as fontes e artistas como é o caso de cliquemusic.com.br, samba-choro.com.br, sombras.com.br e olhodahistoria.ufba.br, essas websites não disponibilizam materiais para downloads, portanto, vasculhem bem na internet que pode-se encontrar em outros, tanto piratas quanto compra em formato de MP3. Já é um começo para a pesquisa.

Sobre as abordagens, aconselha a usar técnicas de Linguística e método serial e quantitativo para aumento informativo e tipológico das fontes. Na música, a textura e e colocação de uma voz, os timbres e o equilíbrio entre os instrumentos, o andamento e as divisões rítmico-melódicas. Na Televisão, o tom de voz, a relação texto/imagem/trilha sonora, duração da notícia ou da cena, as estratégias de reiteração, o vocabulário escolhido, são elementos fundamentais para o telejornal, a telenovela, para ganharem determinada sociedade (p. 267). Há duas regras fundamentais para uma abordagem das fontes audiovisuais: não isolar os códigos encontrados nas fontes e ao isolar a cena ou o som ‘real’. Essas regras são iniciais na pesquisa, ficando depois outra, deve-se construir uma problemática específica para a história do cinema ao invés de usá-lo somente como ilustração e confirmação, isso vale também para a música. Devem-se identificar os elementos técnicos das fontes. Finalizando, o historiador que deseja trabalhar com esses tipos de fontes, deve- ter conhecimento especializado na área da fonte que irá trabalhar. E buscar metodologias específicas para análise.

No capítulo de Marcos Napolitano podemos encontrar um desenvolvimento muito coerente e importante para ais análises documentais que estão se tornando impossível pesquisar, especial os temas que se situam num espaço temporal semelhante ao surgimento dessas invenções: a música, o cinema e a televisão. Como ele mesmo afirma, o historiador chegou atrasado ao que diz respeito à consideração desses materiais como fontes de investigação, daí a pouca ou quase não utilização de metodologias específicas e criteriosas no manuseio analítico dessas fontes ricas em informações, mas não é tarde para inserir essas fontes no rol de documentação da disciplina história e dar a mesma importância que sempre deu ao documento escrito.







REFERÊNCIA.





MAPOLITANO, M. Fontes audiovisuais: a história depois do papel. pp: 231-290. In: PINSKY, C. B (org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005.

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